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02
Fev16

Panopticon

por John Wolf

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PANOPTICON *

A definição de um conceito fotográfico implica, na sua génese, um certo grau de contradição. Confundimos, de um modo semiconsciente, a visão do mundo com a visão fotográfica. O instante e a memória alternam-se, a expectativa e a fugacidade confrontam-se, o registo ou o esquecimento demarcam-se. E a dispersão não pode ser apropriada. Contudo, impõe-se e desenvolve-se numa torrente de aparentes coincidências. O actor-fotógrafo afirma ter estado presente; a sua insuficiência é perene, mas simultaneamente avassaladora. As provas não bastam para delinear a sua honestidade crítica, a sua inclinação ideológica, a afirmação cultural ou o equilíbrio estético. Poderíamos ampliar a distância fundamental que declara que na fotografia a luz mata aquilo que a luz cria – reconhecemos outras dimensões de subjugação, outras artes de decepção, mas também laivos de glória autoproclamada. O fotógrafo pode procurar abandonar-se, como um auto-proscrito, mas o ego aprisiona mais do que liberta.

O indivíduo contemporâneo dotou-se de ferramentas tecnológicas, a vanguarda de um feixe de estilos repescados e símbolos fortes, mas a narrativa original continua a ser de exigente captura - a marca de alma1 que se nos escapa. Na antecâmara do disparo, o tempo de exposição é integral. Tudo o que se viveu; a soma de experiências, o espectro alargado de registos emocionais e intelectuais nem sempre aproveitados com fruição pela disciplina fotográfica ou por outras formas existenciais, de arte ou de mera sobrevivência.

A Fotografia, assente no diálogo entre a presença e a ausência, não implica consensos, embora promova a comunicação entre homens, gravando algo irrefutável, a verdade se quisermos, mas não necessariamente a intenção do autor.

Lidamos com parábolas cromáticas e contradições insondáveis. Nesta ordem de ideias, o ordenamento do território fotográfico é um processo de inquirição, de encadeamento de supostas lógicas, de coerências a prazo que raramente assentam na integridade – a organização formal e completa das imagens. A exposição é um veículo fotográfico híbrido, sempre questionável. Existe um espaço que medeia o suporte e o homem, o intervalo entre a imagem e a observação conduzida por diafragmas perfeitos, os olhos que apreciam densidades e formas, sem obviar tarefas ulteriores. A observação ilumina a expressão facial da imagem, teatralizando o seu plano estático, instigando no corpo uma reacção química de vigília, de alerta na consciência2 e de acção.

Reconhecemos uma certa obsessão civilizacional pela imagem eterna, a evocação do ritual, enquanto o mundo demonstra pouca ternura para com declarações de forte pendor ético que não evoquem o belo. Contudo, os valores de abstracção e imaterialismo parecem regressar para colmatar um certo défice de espírito.

A imagem nasce, acolhida pela força da sua demonstração, exterioriza-se e chega ao destino da cópia abatendo a sua singularidade, reportando à universalização maciça de um mesmo plano, o diapositivo multiplicado vezes sem conta, contextualizado para fins diversos sem que se consiga aferir o valor intrínseco da mensagem3. Nessa medida, a fotografia pode ser autofágica porque se assume que não existem limites, que tudo pode ser apropriado, convertido.

A Fotografia alimenta-se do escrutínio e da análise, mas também encontrará a sua paz numa estância de suspensão, de vácuo doutrinal. Porém, essa volição não implica a ausência de crítica. A mera confrontação de uma imagem com a que precede ou com a que a sucede estabelece um arco de governação, uma hierarquia de expressão, naturalmente aceite. O timelapse, relançado como derradeiro artefacto, não foi inventado, não se conhece o seu início, mas reclama para si o exclusivo de um monólogo anterior - a catadupa de imagens históricas funciona como corrente de continuidade, mas nunca seremos capazes de entender a intenção de outrem, quanto mais completá-la. A existência fotográfica sintetiza uma espécie de poligamia. O fotógrafo assume um movimento pendular que bascula entre a opção linear temática ou o espraiar panorâmico, mas ambos não se devem excluir, porque procuram gerar um efeito inesperado, que instigue no receptor algo íntimo, próximo da bonomia ou gerador de choque. A Fotografia também se assume como propaganda de si mesmo 4 . Um destacamento de imagens, sugerido pelo clausulado de uma competição, levanta dilemas e amplia dúvidas. Reconduz o fotógrafo a um território obviado no acto criativo, mas redescoberto na fixação - a afirmação que se pretende transcendental. A submissão de propostas deve, nessa medida, espelhar a incerteza da condição fotográfica, aceitar a latitude irresistível que viaja entre o auge e a desilusão. O autor, diagnosticado com as permeabilidades descritas, declara-se, nesta sazonalidade fotográfica, como proponente da variância, da dinâmica de risco. Em consonância com esse álibi, apresento os meus trabalhos como elementos de uma sinopse acidental, resgatados para um alinhamento possível, porventura improvável, e consciente das limitações conceptuais que fustigam os irrequietos – the search for the expression which implies all others5.

 

Lisboa, 15 de Setembro de 2015 John Wolf

 

 

1 sobre a marca de água vide Pierre Jules Théophile Gautier (1811-1872)

2 O Sentimento de Si – Corpo, Emoção e Consciência – António Damásio (Temas e Debates, 2013)
3 O Capitalismo Estético na Era da Globalização – Gilles Lipovetsky e Jean Serroy (Éditions Gallimard, 2013)

4 O Lápis Mágico, uma História da Construção da Fotografia Carlos Sousa de Almeida e Carlos M. Fernandes (IST Press, 2014)

5 The Image and the Eye – Further studies in the Psychology of Pictorial Representation – E.H. Gombrich (Phaidon Press, 1982)

 

(uma das imagens e o texto fotográfico apresentados no âmbito de concurso de fotografia - NÃO SELECCIONADO)

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